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Elementor #358

Um dia viveremos o adeus

Carta para o meu primogênito.

Na televisão passava o clássico programa de domingo da TV Globo, eu estava no sofá e o seu pai na rede. Impaciente, seu pai me perguntou:

– Sobre o que é mesmo esse quadro?

– Despedidas.

Respondi com aquele tom de “fica quieto e presta atenção”.

Então fomos absorvidos pela história de uma família de 3 filhas. A mais velha faleceu aos 18 anos em um acidente trágico de carro, a do meio estava indo embora para o exterior ser au pair e a mais nova iria embora em poucos dias para fazer uma faculdade inteira fora.

E os pais?

Bom, todos os pais envolvidos nessa história choravam. Os das meninas e os seus. De repente aquela emocionante história sobre como um casal foi forte na tempestade e fez um bom trabalho com suas filhas ficou indigesta. Tão insuportável que nos levou a desligar a televisão.

Olhamos um para o outro, seu pai, o homem mais forte que conheci, já em lágrimas disse:

– O pepetones vai embora (Será que um dia você vai ter vergonha desse apelido, meu filho?)

Respondi como quem diz “é óbvio que o céu é azul”.

– Vai, com toda a certeza.

E rimos falando sobre você ainda nem saber colocar a água no seu copinho azul de canudo dado pela Vovó Marli, mas um dia vai nos dizer “tchau, to indo pra casa” e não será a nossa casa e sim a sua.

Desligamos todas as luzes, abrimos a porta do seu quarto e ficamos te vendo dormir e respirar pesado no seu berço. Você estava com a sua blusa de Jacaré Pedro por cima da blusa do dinossauro bebê e com as meias de foguete que você aceitou após chorar pelas meias de carro.

Diante de toda a fragilidade que é ver um bebê de 2 anos e 3 meses dormir tranquilo e seguro no seu quartinho cuidadosamente refrigerado, eu me senti a mais frágil das mulheres porque sei que um dia esse pequeno menino escapará das minhas mãos, mas eu também sei que nesse dia eu terei a certeza que criei um homem forte e fiz o meu trabalho.

Filho, quando você ler essa carta não se sinta culpado por querer conquistar o mundo. Eu sei que você vai ser um homem desse tipo. Quero que você sinta coragem o suficiente para ir porque saberá que sempre vai ter para onde voltar.

Com toda a saudade que só um pai e uma mãe podem sentir,

Vitória e André.

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Vitória Galvão

Vivendo entre teorias e histórias.

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