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Brincar é coisa do passado, a moda agora é diversão virtualizada.

Sou da chamada Geração Z, nasci no mesmo ano em que lançaram o Yahoo. Para os jovens, já sou “velha”. Para os mais velhos, ainda sou “jovem”. Filha de pais da Geração X, cresci junto com a tecnologia, enquanto eles tentavam (e ainda tentam) se adaptar a ela.

Venho de uma família grande e, nos encontros no interior, aprendemos a brincar de pique-esconde, pega-pega, bandeirinha e queimada. Colher mandioca, disputar o carrinho de mão e tomar banho de rio também era diversão.

Lembro de segurar o xixi só para não ter que ir até a casinha de madeira e perder as histórias do meu avô, que sempre começavam com: “No meu tempo a gente brincava de telefone com lata de leite”. Com o tempo, ouvi minha mãe e minhas tias repetirem histórias parecidas: brincavam de igreja, de pescador, de tudo que a imaginação permitia.

Hoje, com uma cópia minha de 2 anos que passa o dia correndo pela casa, eu já ensaio as minhas primeiras histórias. Quero contar pra ele sobre o dia que apertei uma campainha, saí correndo, mas eu não contava que iria cair bem no meio da rua assim que o dono da casa abrisse o portão. Quero contar também que ganhei uma lousa branca e brincava de professora, mas sempre me irritava quando os meus bichos de pelúcia não aprendiam a lição. 

O que me preocupa mesmo é: o que meu filho vai contar para os filhos dele? E será que os meus bisnetos vão querer me ouvir?

Num mundo em que parquinhos viram lugares perigosos porque as crianças não largam o celular nem para escorregar, e adolescentes se reúnem para olhar cada um seu smartphone em silêncio, as risadas, as invenções e as histórias de infância parecem coisa do passado.

Até hoje, não conheço nenhuma boa história de aventura que comece com:

“Lembra quando a gente estava vendo o TikTok e…”

Vitória Galvão,

alguém que espera que os netos ouçam suas histórias.

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Vitória Galvão

Vivendo entre teorias e histórias.

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